Jovens brasileiros trocam o estudo pelas apostas: um retrato preocupante da nova geração

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Nos últimos anos, o avanço das apostas online no Brasil vem revelando um novo dilema social: jovens trocando o investimento em educação pela ilusão do “ganho rápido”.

Segundo pesquisa da ABMES em parceria com a Educa Insights (2025), 34% dos jovens entre 18 e 35 anos afirmam que adiaram o ingresso na faculdade por gastar com apostas, enquanto 14% dos estudantes matriculados já atrasaram mensalidades ou trancaram o curso pelo mesmo motivo. Os números sobem para 44% no Nordeste e 43% nas classes D e E, revelando um impacto ainda mais forte entre as faixas de menor renda.

Esses dados — ainda que se refiram a um público específico (jovens com intenção de ingressar em instituições privadas) — mostram uma tendência que não pode ser ignorada: o comportamento financeiro de parte da nova geração está sendo moldado pela promessa da sorte, e não pelo valor do conhecimento.

Apostas em alta, educação em queda

De acordo com o DataSenado (2024), cerca de 13% da população brasileira — o equivalente a 22 milhões de pessoas — apostou online nos últimos 30 dias, sendo a maioria jovens entre 16 e 39 anos. Com a regulamentação das apostas pela Lei 14.790/2023, o mercado cresceu rapidamente, mas sem o mesmo avanço em educação financeira e conscientização sobre os riscos.

Em paralelo, o Censo da Educação Superior 2024 (MEC/Inep) mostra uma taxa de evasão de 17,5%, o maior nível da última década. Ainda que nem toda evasão esteja ligada às apostas, o fenômeno das “bets” se soma a um cenário de inflação educacional, dificuldade de crédito estudantil e incerteza econômica.

Por que isso está acontecendo?

A explicação vai além das telas. O contexto de desemprego juvenil, instabilidade econômica e falta de perspectiva profissional tem levado muitos jovens a buscar atalhos financeiros. As plataformas de apostas exploram gatilhos de recompensa rápida e sensação de controle — uma combinação que, para quem já vive sob pressão financeira, pode ser perigosa.

Há também uma mudança de percepção sobre o valor do estudo: enquanto gerações anteriores viam a educação como investimento, parte da nova geração, exposta à cultura digital e ao imediatismo das redes, tende a buscar resultados instantâneos — e as apostas entregam exatamente essa sensação.

Os riscos de uma geração apostadora

O impacto vai muito além do bolso. Quando um jovem troca o aprendizado pelo jogo, o que se perde é tempo de desenvolvimento pessoal, de construção de carreira e de capacidade de gerar renda sustentável no longo prazo.

O risco é formar uma geração mais endividada e menos qualificada, em um país que já enfrenta desafios estruturais em produtividade e desigualdade.

O caminho passa por educação financeira

Mais do que proibir ou demonizar, o caminho está na educação financeira e digital. Ensinar sobre risco, probabilidade, disciplina e planejamento é fundamental. Apostas existem e continuarão a existir — o que precisa mudar é a forma como o brasileiro se relaciona com o dinheiro e com o futuro.

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