A Selic continua em níveis historicamente altos — próximos dos maiores desde a era Dilma — e, mesmo assim, o Ibovespa vem batendo recordes.
Para muitos, isso soa como contradição. Afinal, juros altos encarecem o crédito, desestimulam consumo e, em tese, esfriam o apetite por risco.
Mas o mercado financeiro não olha o presente. Ele tenta antecipar o futuro.
A bolsa precifica expectativas, não o presente
Quando o investidor compra ações, ele compra expectativas: de crescimento, de queda de juros, de lucros maiores.
Mesmo com a Selic ainda alta, o mercado enxerga adiante — já precificando um ciclo de cortes futuros e uma economia em reaqueção.
Esse movimento, chamado de precificação de expectativas, explica por que a bolsa pode subir antes mesmo da melhora real acontecer.
O Ibovespa não representa “a economia brasileira” como um todo.
Grande parte do índice é composta por exportadoras e bancos, setores que podem performar bem mesmo num cenário de juros elevados.
- Commodities: empresas como Vale e Petrobras se beneficiam de dólar valorizado e demanda global.
- Bancos: aumentam margens de lucro com spreads maiores e crédito mais seletivo.
Portanto, o índice pode subir mesmo com consumo e crédito mais fracos no mercado interno.
O papel do fluxo estrangeiro
Outro fator relevante é o fluxo internacional de capitais.
Com o Brasil pagando juros altos, mantendo certa estabilidade fiscal e apresentando uma bolsa barata em dólar, o país se torna atrativo para investidores estrangeiros.
Esse movimento de entrada de capital gera pressão compradora nas ações, puxando o índice para cima, mesmo que o investidor local ainda esteja conservador.
O custo de oportunidade entra em cena
Com a Selic elevada, investir em renda fixa se tornou extremamente vantajoso.
Retornos acima de 1% líquido ao mês em ativos conservadores colocam pressão sobre qualquer outra classe de ativo.
Por isso, antes de migrar para a renda variável apenas por “fomo” ou empolgação com máximas, é preciso entender quanto se deixa de ganhar ao abrir mão de um retorno previsível e seguro.
Em outras palavras:
O custo de oportunidade nunca foi tão alto.
E o bom investidor não é o que corre mais — é o que aloca com consciência, entendendo o momento e os trade-offs de cada escolha.
O Ibovespa bater recordes com a Selic alta não é uma incoerência, é apenas o mercado precificando um futuro de cortes e recuperação.
Mas esse cenário reforça uma lição simples e poderosa:
Em tempos de juros elevados, o custo de errar é alto demais.
Por isso, mais importante do que correr atrás de rentabilidade é equilibrar segurança e oportunidade de forma inteligente.
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